segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Estado caótico

É possível dizer, com alguma razoabilidade, que se os casos de racismo não aumentaram em termos nominais nos últimos anos, ao menos ganham mais notoriedade. Fato muito natural, visto que na era da tecnologia digital – esta, onde há mais telefones celulares que habitantes –, as pessoas, munidas de suas câmeras, com alguma pretensão de fazer justiça somada ao desejo implícito de serem notadas no meio virtual, espalham por aí – ou melhor, postam – os atos criminosos de preconceito aos seus pares de pele negra e os casos de imposição institucional, cuja exacerbação se converte numa verdadeira violação dos direitos humanos. A ascensão social do negro, propiciada com a ajuda de políticas públicas e alta dose de esforço próprio, pois ascender em uma sociedade naturalmente discriminatória é algo assaz penoso, é vista como invasão de território das classes de pele branca. É importante notar que essa fronteira demarcatória, que separa os que se julgam da elite branca dos moradores da periferia, não requer que se tenha necessariamente alto poder aquisitivo, mas que, antes de tudo, aparente pertencer a uma classe mais sofisticada. Para embasar tal afirmativa, é só tomarmos casos que, não raro, vemos atos de discriminação racial sofrida por moradores de condomínio, cujos condôminos brancos, fazendo um alto julgamento de si mesmo, recusam-se, por exemplo, a compartilhar o elevador social com os raríssimos demais da pele negra. Em uma sociedade cada vez mais interligada (virtualmente) e cada vez mais reclusa (fisicamente), sair bem na foto é condição sine qua non para ser bem aceito, ainda que não se tenha nada além de dinheiro.

Inicialmente, tomemos como exemplo o futebol para demonstrar a segregação racial e social enraigada em nossas entranhas. No Brasil, onde há uma grande miscigenação do seu povo, a segregação racial é muito evidente, ironicamente, numa de suas grandes identidades, o futebol. Esporte esse criado e exportado pela Inglaterra, um país tradicionalmente escravocrata. Sendo o Brasil um país de mentalidade colonizada, porquanto tendemos a imitar tudo que se faz lá fora, o esporte chegara aqui e se tornara rapidamente elitista. Deste modo, os negros tiveram acesso bloqueado tanto aos campos quanto às arquibancadas. Contudo, com a popularização do esporte somado à profissionalização dos atletas e a necessidade dos clubes conseguirem recursos para financiar seus gastos fizeram com que o futebol se tornasse mais acessível. Deste modo, a inserção do negro pôde de fato ocorrer, já nos anos de 1910-1920, inserção essa que sofreria uma enorme resistência, quando o infortúnio da copa de 1950 abalaria os frágeis alicerces da então coletivização do esporte no país, onde os bodes expiratórios, Barbosa, Juvenal e Bigode foram inteiramente responsabilizados pelo fiasco da seleção em pleno Maracanã, reascendendo, assim, os velhos preconceitos de décadas anteriores. Some essas chagas abertas aos superestádios construídos tanto na era Vargas, sob a bandeira da unificação nacional, quanto na década de 1970, com a forte intervenção do governo ditatorial. Nos superestádios, então construídos, os preços dos ingressos variavam – e ainda variam –, absurdamente, dependendo da localização do espectador, com o proletariado aglomerando-se atrás da baliza, com uma péssima visão do campo. Esse esboço de temeridades é um sinal inequívoco de uma estrutura social débil, ancorada em um governo inábil que não tardaria a se mostrar repressor e injusto.

A institucionalização do combate à violência, nos principais centros urbanos, tem se mostrado cada vez mais desajustada. Com a relativa estabilidade da economia nos últimos anos, o aumento real da renda e o conjunto de políticas públicas que visando uma maior equidade social, muitos brasileiros passaram a ter acesso a serviços e ambientes, antes pouco explorados. Tal progresso, obviamente muito bem vindo, trouxe consigo a violência e os crimes típicos dos grandes centros urbanos, que, apesar das conquistas sociais obtidas, não deram o menor sinal de arrefecimento. O Estado, com todo seu aparato bélico, tenta ofertar um serviço de segurança adequado à população, porém, essa tentativa esbarra nos gargalos históricos que são impostos à política de segurança pública. Com uma polícia mal treinada, mal paga e corrupta seria o bastante para frustrar qualquer tentativa de imposição de paz urbana. Some às dificuldades operacionais, um conjunto de leis retrógradas que funcionam muito bem para deixar o bandido nas ruas; os presídios, superlotados, que abrigam os criminosos por algum curto período de tempo, não são capazes, por si só, de transformar essa camada marginalizada da sociedade em gente de bem. Temos, pois, um desserviço terrivelmente prestado à sociedade. Com o seu orçamento apertado pelos altos impostos que paga e a consciência deturpada pela sensação de insegurança, causada, sobretudo, pelo risco evidente de ser assaltada a qualquer momento ou, não somente, algo pior, que é ter sua vida interrompida de forma banal numa esquina qualquer. Desta forma, abrem-se brechas para a formação de pré-conceitos, que logo se transformam em preconceitos.

O Estado tem se mostrado cada vez mais repressor no combate a criminalidade. Num primeiro momento, a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas do Rio de Janeiro representa alguma melhoria no que concerne ao combate à criminalidade de uma forma geral. Entretanto, num segundo momento, essa política tem se mostrado consideravelmente opressora, com mortes injustas de moradores e abordagens desrespeitosas, numa tentativa de impor respeito via autoritarismo. Respaldados, institucionalmente, pelos Autos de Resistência – uma espécie de permissão legal para matar – os policiais invadem as favelas, deixando um rastro de mortes, terror e impunidade, sempre sobre o pretexto de legítima defesa. Lembremos-nos do fato ocorrido em junho de 2013, quando policiais do BOPE invadiram uma comunidade, no complexo de favelas da Maré, cuja população é de cerca de 130 mil pessoas, em resposta a roubos, supostamente, realizados pelos moradores; desta operação, resultou a morte de um policial e, como resposta, a retaliação foi sangrenta: nove moradores da comunidade mortos em menos de 24 horas. Por fim, outro fato, entre muitos outros, que deve ser lembrando é Caso Amarildo, cujo que tudo indica foi assassinado brutal e covardemente por policiais da UPP da Rocinha. A lista de barbaridades e crimes, muitos deles legalmente institucionalizados, é grande e não caberia num só artigo. Em comum, as vítimas, dos “bandidos de farda”, têm o fato de serem negras, jovens, com baixa escolaridade e moradores de favela, até aqui nenhuma novidade.

Medidas de combate à violência e à criminalidade, não só aquelas impostas brutalmente por policias, vem sendo implementadas com duvidosa eficácia. O cercamento de morros e favelas, a proibição do uso de acessórios que cubra o rosto de indivíduos em estabelecimentos comerciais de acesso público (Lei 6.717/2014) e a autorização de guardas municipais de portarem arma de fogo (Lei 13.022/2014) são algumas das medidas preventivas adotadas pelo Estado, em sua tentativa atabalhoada de conter a violência nos grandes centros urbanos. Como as medidas adotadas não resolvem o cerne do problema, o Estado só ganha ar de opressor, e suas ações ineficazes apenas desloca os bandidos, fazendo com que eles mudem sua forma de atuar.


Se com todas essas medidas de opressão e aparato bélico – para fazer frente ao inimigo escolhido – não dão os resultados esperados, talvez seja oportuno mudar a estratégia. E se talvez o dinheiro dos nossos impostos fossem destinados à construção de escolas com material adequado; e se os professores fossem mais bem remunerados e assaz valorizados, não só em termos financeiros, mas também em termos de reconhecimento; e se ao invés de construir mais presídios, para depois não cuidar da manutenção e segurança básica de forma apropriada como se faz necessário, o Estado tratasse de melhor preparar e remunerar os policiais, para que a corrupção, quase que enraizada em nosso DNA, não mais deteriore nossas instituições; e por fim, mas não no fim, construísse mais clínicas de reabilitação de dependentes químicos, as quais poderia receber de forma satisfatória o contingente que povoa as cracolândias desse nosso Brasil. Não podemos afirmar, com alguma certeza, se essas medidas farão surtir algum efeito aprazível sobre um de nossos maiores problemas a médio e longo prazo, a criminalidade. Contudo, o que não podemos continuar é com essa política opressiva adotada, deliberadamente, pelo Estado em sua tentativa, até agora frustrada, de combater a onda de criminalidade que assola nossas grandes metrópoles e a torna um lugar cada vez mais impróprio para se viver em paz.

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