terça-feira, 21 de julho de 2015

A Nova Matriz Econômica

Por certo, que cada economia têm suas peculiaridades. Deve ser considerada a existência de cada uma de suas características. Evidentemente, um governo eficiente deve agir para erradicar as falhas de mercado, mediantes políticas públicas eficientes e destituídas de populismo barato, que no final sai caro, ou de alguma outra sórdida mesquinhez. É de conhecimento geral, o fato de povo tupiniquim ter atravessado a crise de 2008 praticamente imune aos efeitos perversos do enxugamento de crédito que se propagou no globo, após a aversão generalizada a risco propagar, nos outrora homens com apetite por risco, trazendo apreciação cambial, desequilíbrios no balanço de pagamentos e outras perniciosidades inerentes aos desequilíbrios macroeconômicos. Nossas mal formuladas políticas anticíclicas tardaram a falhar, mas falharam; o resultado foi um total desalinhamento com as políticas econômicas dos principais países sobreviventes.

O Brasil, sob a gestão petista, de fato avançou em muitos aspectos, especialmente em nível social. Contudo, muitos desses avanços tiveram como base às implementações institucionais e monetárias, como, por exemplo, a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal e a implementação do Plano Real, respectivamente. Com o arcabouço relativamente satisfatório, o país pôde aproveitar-se do ambiente externo favorável, que por sua vez ensejou o boom das commodities, que tanto favoreceram nossa balança comercial. Com efeito, houve melhora nos indicadores socioeconômicos. O coeficiente de Gini que passou de 0,59, na década de 1990, para 0,53 nos anos 2000; a extrema pobreza, presente nos lares, cuja vagarosa caminhada que passara de 13% nos anos de 1970 para 10% na década de 1990, chegou a importantes 5% nos anos 2000; nosso diminuto PIB melhorou comparado consigo mesmo, num crescimento médio de 2,3% para 4,8%, tendo passado por 3,2%, nos respectivos períodos de 1990-1999, 2003 - 2008 e 2000-2009. Todos esses ganhos, embora modestos comparado à seus pares, somado à estabilidade de preço, foi especialmente proveitoso para dar poder de ganho real para o salário do trabalhador.

Quanto ao cenário externo, do qual soubemos aproveitar relativamente bem, fomentou o molde da nossa pauta de exportação. As commodities, tendo nos chineses sua principal mola propulsora, saltaram de uma fatia de 53% (2000-2011) para alcançar picos de 65%. Contudo, o crescimento econômico chinês caiu da casa dos 10% para algo próximo a 7%, fato este que serviu para empurrar-nos ladeira abaixo. A partir de 2012, essa desaceleração fez o preço das commodities despencarem, enfraquecendo o desempenho da nossa débil e dependente balança comercial, muito dependente de produtos primários.

Aliás, após a crise de 2008, o cenário ficou bastante desfavorável para nossa economia. Posto que os Estados Unidos, ocupados em injetar recurso em sua economia, via absorção de dívida privada, para aumentar a liquidez de seu mercado, passaram a ser uma grande fonte de preocupação e conseqüente volatilidade no mercado de capitais; a Europa – entenda União Européia –, ocupada, por uma lado, em se livrar do risco eminente de deflação, por outro, em manter seu membros coesos e saudáveis, para que nenhum agravo, como um default, venha a contaminar os demais membros do clube, sob a tutela de um BCE conservador; e por fim, os argentinos, sob um governo ineficientes e retrogrado, tentam, a duras penas, não serem devorados pelos abutres. Obviamente, esses desagrados somados a um governo inepto – algo tão grave, ou mais, quanto os agravantes externos – é ruma receita inequívoca para nos enfiar em uma recessão. 

O governo brasileiro, com toda sua propensão a gastar de forma desenfreada, e muito mal, resolveu bancar o herói geral da nação. Tendo a iliquidez internacional e a aversão a risco como pano de fundo, encontrou neste cenário a deixa perfeita para aplicar sua equivocada política anticíclica. Pois tendo uma forte crença de que as finanças públicas, especialmente em tempos duros de crise, é instrumento de fazer o bem, resolveu agir e não tardou a meter os pés pelas mãos. Deste modo, usou e abusou do tão consagrado populismo que tantas eleições têm garantido, especialmente em países subdesenvolvidos.

Não sabendo avaliar bem, uma simples marola é capaz de afogar o mais hábil nadador, quando este, não estando com suas faculdades mentais plenamente saudáveis. O governo abusou das diversões litorâneas, e por pouco não se afogou num mar de contabilidade criativa, crédito subsidiado e gestão ineficiente de empresas públicas, e um atoleiro de corrupção jogou a pá de cal na debilitada confiança do investidor estrangeiro, empresário e, por fim, consumidor. Deste modo, enfim, o governo de tudo usou, deteriorando os principais fundamentos macroeconômicos, os quais cito, sendo bem sucinto: confiança do empresário e consumidor, inflação, geração de empregos e contas externas.

Pois bem, como tudo fora feito, quase que exclusivamente, para incentivar a demanda, praticamente nada fora feito para alicerçar bem as condições de oferta, isto é, as bases da produtividade. Assim, houve incentivo ao crédito, desoneração da folha de pagamento, redução e eliminação - de forma temporária - do IPI de bens de consumo duráveis e elevação impostos de produtos importados; além, é claro, de apontar seu dedo gordo para escolher os campeões nacionais, o fazendo por meio do BNDES. A falta de confiança em uma economia cambaleante e relativamente fechada, descrédito geral nas instituições públicas e cenário externo se deteriorando contribuíram para fazer o investimento permanecer estático, sempre em torno de 18% do PIB; o progresso tecnológico, ligado à esfera produtiva, estacionou; com a inflação incipiente, a curva de juros a termo ascendeu, somado a outros fatores, prejudicando a produtividade da indústria. Foi assim que a política anticíclica, que visava incentivar a demanda agregada por meio do consumo, em especial via distribuição de renda e inclusão social, se tornou perniciosa. 

Não resta dúvida, que a recessão que vivemos hoje tem suas origens no modelo de crescimento adotado recentemente. Seria muito mais plausível impulsionar a demanda agregada, todavia, com um foco maior no que concerne à oferta. Entretanto, o governo do PT, em especial o governo Dilma, o preferiu fazer por meio quase que exclusivamente do incentivo ao consumo. Portos sucateados, rodovias mal sinalizadas, estradas esburacadas; a educação, cujo objetivo principal é preparar o cidadão para o mercado de trabalho, é precária e mal gerida. Nestas condições, a perda de produtividade é inevitável. Porém, foram negligenciados todos esses fatores para suprir as necessidades de curto prazo e garantir eleições futuras. Se como tal, o objetivo da política era esse, de fato conseguiu: atravessamos uma crise, quase que imunes à falta de liquidez global, o governo fora reeleito com total demérito. Se hoje colhemos recessão com inflação, outrora fora plantada uma política econômica errônea e equivocada, demasiadamente populista e com timing errado; o foco em ganhos de curto prazo levou ao detrimento das necessidades há muito prementes em uma país com enorme potencial de crescimento.

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